O Olhar que Esculpe o Tempo
- Artie Ifishial

- 26 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 3 de jan.
Lembro-me de um entardecer à beira-mar, a luz dourada escorregando pelas dunas, desenhando sombras longas e dramáticas. A areia, granulada sob meus pés, parecia sussurrar histórias antigas. Não era apenas a beleza que me prendia, mas a forma como a luz filtrava o mundo, revelando texturas que, para outros, talvez passassem despercebidas. Naquele momento, com minha câmera analógica em mãos, não buscava apenas um registro, mas a essência do lugar, a melancolia poética do fim do dia. A fotografia, para mim, tornou-se essa alquimia: transformar o instante fugaz em algo que respira, que carrega a alma do que foi visto e sentido. Cada clique é uma escolha, um corte no fluxo contínuo da realidade, uma decisão carregada de minhas próprias experiências, medos e alegrias. Quando aponto a lente, não é apenas o objeto que busco, mas a reflexão dele dentro de mim. A textura crua de um muro antigo, a imperfeição de um rosto marcado pelo tempo, o jogo de luz e sombra em um beco estreito – são fragmentos que se conectam à minha narrativa interna. Não se trata de uma cópia fiel, mas de uma interpretação, uma tradução visual do que sinto. É nesse espaço íntimo, onde a visão se encontra com a emoção, que a imagem transcende o mero registro e se torna um eco cultural, um pedaço da minha percepção que se oferece ao mundo. As manchas, os grãos de filme, a suavidade imperfeita das lentes antigas – tudo isso não é um defeito, mas a própria melodia da minha fotografia. Quando observo as impressões que surgem do banho químico, há sempre uma surpresa, uma revelação que nem mesmo eu, no momento do clique, antecipei completamente. É a interação entre o meu olhar e a sensibilidade do material que dá vida a algo novo. A fotografia, então, não é somente uma ferramenta para capturar o mundo, mas para criá-lo novamente, banhado pelas minhas lentes, filtrado pelas minhas escolhas, e eternizado por um instante que agora pertence a todos que o observam e se permitem sentir.



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