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A Dança Imperfeita da Luz

  • Foto do escritor: Artie Ifishial
    Artie Ifishial
  • 26 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Houve um dia, sob um céu nublado que prometia mais do que entregava, que me vi diante de um muro descascado, um grafite desbotado mal se distinguindo. A luz fraca banhava a cena de um cinza profundo, e a textura granulada do filme parecia amplificar cada fissura, cada marca de tempo. Eu poderia ter esperado pelo sol, por uma claridade ideal, mas algo me impeliu. O flash da minha câmera de filme pareceu um sussurro naquele silêncio, registrando não a beleza óbvia, mas a beleza daquele instante em sua crueza. A foto revelada trouxe consigo a alma daquele muro, a resiliência em suas marcas, uma verdade que a perfeição nunca alcançaria. É na falha, na mancha acidental, na sombra que se estende de forma inesperada, que encontro a essência. Aqueles que buscam a imagem prístina, sem falhas, talvez percam a chance de sentir o tremor do momento. Para mim, a vida se manifesta em pixels fora de lugar, no grão que abraça o foco impreciso, no desfoque que narra uma história não dita. Quando aponto a lente, não busco um reflexo literal, mas uma ressonância. É como se a câmera, com sua capacidade de guardar a luz, me permitisse capturar o espírito que flutua entre o visível e o sentido. Cada clique é uma aposta na intuição, um mergulho no incerto. Há a expectativa ansiosa do processo de revelação, a respiração contida enquanto a imagem emerge do banho químico, e então, a surpresa. Às vezes, uma aberração cromática se transforma em um portal para outra dimensão, um vazamento de luz, um convite para reimaginar. A técnica é um guia, sim, mas a alma da fotografia reside na permissão de se perder, de deixar que a imperfeição seja a ponte para a emoção. É assim que alcanço o momento, despojado de adornos, em sua forma mais pura e vulnerável.


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©2035 Artie Ifishial

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